Para algumas pessoas, um cachorro é mais que um animal de estimação: é um estilo de vida, nos finais de semana. Considerem o Westchester County Center, em White Plains, Nova York, certa manhã fria de domingo no mês passado. Centenas de cães e seus donos estavam passeando antes da abertura da feira anual de cachorros do Kennel Club de Saw Mill River, um dos mais de 20 mil eventos que o Kennel Club dos Estados Unidos sanciona a cada ano.
Cachorros estavam sendo afofados e penteados, escovados e instruídos, muitas vezes por pessoas portando cabelos tingidos e penteados em estilos bizarramente similares aos de seus amigos peludos. Em meio à multidão canina - 719 cachorros seriam exibidos - havia estandes como o Wholistic Pet, que vendia pólen de abelhas e óleo de salmão, para consumo canino apenas.
A multidão de adeptos dos cuidados, mimos e exibicionismo canino criava uma sensação conhecida, mais ou menos semelhante à que costumava existir entre os fãs que viajavam de estádio a estádio para acompanhar os shows do Grateful Dead. Mas essas pessoas merecem o título dogheads, em lugar de deadheads (apelido dado aos fãs da banda liderada por Jerry Garcia); e em lugar de assistirem ao espetáculo, elas (e seus cachorros) são o espetáculo.
Os dogheads e os cachorros que eles adoram, porém, ao preparar seus poodles e lulus da pomerânia para o show em Westchester, demonstravam estilo bem menos contido do que os fãs típicos do Grateful Dead.
Em determinado momento, um menininho estava acariciando um imenso mastim tibetano. O proprietário do cachorro, com uma careta, advertiu: "pode agradar quanto quiser depois do julgamento, mas deixe o cachorro em paz agora. Assim você estraga os padrões. Levei três horas para fazer esse penteado!" Janet Barrett sorriu, com alguma compreensão, para o proprietário do mastim. No comando de seu estande, o Designed4Paws, ela já teve de conviver bastante com proprietários obsessivos e compulsivos. Afinal, os produtos que ela vende são casacos, suéteres e capas de chuva feitos a mãos especialmente para cachorros. "Os donos de cachorros são pessoas ótimas", diz Barrett, que veio de Chester, no Connecticut, e produz roupas especiais para cachorros há seis anos. "Mas eles podem ser, digamos, meio neuróticos sobre a maneira como querem as coisas. Já fiz um casaco com forro de peles para um rottweiler, e um falso casaco de mink para um dinamarquês. Não são produtos que a gente encontre à venda em um catálogo, o que explica que as pessoas me procurem. Meço os cachorros em oito partes diferentes do corpo para que as roupas sirvam realmente bem." Não muito distante do estande de Barrett, estilista do cachorro elegante, estava Anthony Bernard, que poderia ser considerado o rei dos dogheads, se esse título existisse. Ele e seu papillon premiado, Slick, servem como barômetro da espécie de dedicação que o circuito dos salões caninos desperta. Com Slick e cinco outros cachorros (nem todos papillons), disse Bernard, ele participa de oito competições mensais, e está na estrada todos os finais de semana do ano. Isso envolve "milhares de quilômetros e milhares de dólares" a cada ano, e poucos dos eventos caninos oferecem prêmios em dinheiro.
Bernard calçava mocassins, usava um paletó esporte e levava ao pescoço uma gravata de seda com estampas de borboletas - o inseto cujo nome os cães da raça de Slick portam. Ele disse que estar na estrada com seus "bebês" era parte da diversão.
Sentado em companhia de seu campeão, que atende por Slick mas cuja certidão de batismo exibe o grandioso nome Champion Arkeno Rodeo Fast Talking, Bernard, morador de Lafayette, Nova Jersey, tinha histórias tão divertidas sobre a vida na estrada canina que poderia ser considerado também como o Kerouac dos dogheads.
Ele é um narrador divertido dos percalços que a vida dos criadores de cães de exposição apresenta, e com certeza não faltam histórias estranhas sobre as belezas quadrúpedes dos Estados Unidos e as peripécias de seus proprietários.
"Suponho que minha favorita envolve aquela vez em que estava hospedado com Slick no Plaza Inn de Palm Beach, para um salão", diz Bernard, que ganha a vida como comerciante de antiguidades. "Eu tinha um jantar marcado com um amigo, e o recepcionista do hotel me indicou um ótimo restaurante e cuidou das reservas. Meu amigo teve de cancelar no último minuto, e por isso liguei para avisar o recepcionista. 'Seu amigo? Achei que o senhor fosse jantar com o seu cachorro. Foram essas as reservas que eu fiz no restaurante. O senhor e seu cachorro' ele disse."
"Palm Beach é uma cidade simpática aos cachorros, para dizer o mínimo. E por isso levei Slick àquele ótimo restaurante, onde ele se sentou comigo à mesa e comeu frango grelhado", diz Bernard.
Com as viagens, as despesas e o cheiro permanente de cachorro que isso deve deixar no carro, é difícil compreender por que legiões de apreciadores dos cachorros cruzam os Estados Unidos a cada final de semana para esse tipo de evento. Lisa Peterson, porta-voz do Kennel Club, diz que a proximidade com o cachorro oferece recompensas que superam em muito o cansaço, as despesas e a confusão.
"Uma das coisas mais adoráveis que acontecem quando você passa tanto tempo com seu cachorro", disse Peterson, que já exibiu sabujos noruegueses em salões caninos, "é a maneira pela qual você pode revitalizar sua visão do mundo e eliminar parte daquele cinismo que se instala quando nos tornamos adultos.
Eles se animam tanto simplesmente por olharem pela janela do carro ou estarem em um lugar novo que você, como proprietário, começa a ver a situação pelos olhos deles. E isso propicia uma sensação de verdadeira alegria".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times
sábado, 12 de abril de 2008
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Um comentário:
Nessas Horas que levar uma vida de cão é um bom negócio
Bjooo
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